Raimundo Carrero, escritor que criou a lenda da Perna Cabeluda, morre aos 78 anos no Recife
16/06/2026
(Foto: Reprodução) Morre aos 78 anos o escritor Raimundo Carrero, no Recife
O escritor pernambucano Raimundo Carrero morreu aos 78 anos, na madrugada desta terça-feira (16), no Recife (veja vídeo acima). A causa da morte foi um câncer, de acordo com a família do autor de livros como "As sóbrias ruínas da alma", que conquistou o Prêmio Jabuti em 2000, e criador da lenda urbana da Perna Cabeluda, que aparece no filme "O Agente Secreto".
O velório acontece a partir das 12h na Academia Pernambucana de Letras, localizada na Avenida Doutor Malaquias, no bairro das Graças, na Zona Norte do Recife. Raimundo Carrero era membro da instituição desde 2004. O enterro dele ocorre às 16h no Cemitério de Santo Amaro, no Centro da cidade.
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À TV Globo, a família do escritor disse que ele estava internado há uma semana no Hospital Esperança, na Ilha do Leite, no Centro do Recife. Carrero foi à unidade de saúde após sentir dores e descobriu que estava com um câncer em estágio avançado próximo do pulmão.
Familiares também lembraram que, há 16 anos, o escritor teve um acidente vascular cerebral (AVC) e, desde então, passou a apresentar várias comorbidades.
No comunicado da morte, os parentes de Carrero disseram que, neste “momento de dor, a família agradece as manifestações de carinho, solidariedade e respeito recebidas de amigos, leitores, admiradores e de todos que tiveram suas vidas tocadas por sua trajetória”.
“Ao longo de sua vida, Raimundo dedicou-se à literatura com paixão, sensibilidade e compromisso, construindo uma obra que marcou gerações de leitores e contribuiu de forma significativa para a cultura pernambucana e brasileira”, afirmou a família do escritor, em nota.
No Instagram, a Academia Pernambucana de Letras disse que "se solidariza com familiares, amigos, leitores e admiradores neste momento de dor e despedida" e se referiu a Carrero como "um dos mais importantes escritores pernambucanos de sua geração". Também destacou que ele morreu "no dia em que seu mestre e amigo, Ariano Suassuna, completaria 99 anos, caso estivesse vivo".
Raimundo Carrero é escritor, jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras desde 2004
Alexandre Godim/Divulgação
Criador da Perna Cabeluda
Em nota conjunta, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco (Sinjope) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) destacaram que Raimundo Carrero “deixou sua marca no imaginário popular ao criar, em 1976, a história da Perna Cabeluda, uma das mais conhecidas lendas urbanas do Recife" e que voltou aos holofotes ao aparecer no filme "O Agente Secreto”.
No texto, as duas instituições manifestaram profundo pesar pela morte do escritor e declararam que:
se solidarizam "com familiares, amigos, leitores e admiradores neste momento de dor e despedida de um dos mais importantes escritores pernambucanos de sua geração”;
ele era “considerado um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea” e foi “reconhecido como um dos escritores mais premiados do país;
“construiu uma trajetória marcada pela excelência no jornalismo e na literatura [...] e recebeu reconhecimento nacional e internacional”.
Luto de três dias
O governo de Pernambuco decretou luto oficial de três dias pela morte de Raimundo Carrero "em sua memória e em reconhecimento a sua trajetória". Em nota de pesar, Raquel Lyra (PSD) afirmou que recebeu com tristeza a notícia da morte do escritor.
"Com obras premiadas e reconhecidas no Brasil e no exterior, Carrero teve sua vida dedicada à defesa do jornalismo e da literatura. [...] A minha solidariedade à família, amigos e inúmeros leitores neste momento de despedida. A escrita de Carrero jamais será esquecida. O seu legado também", disse a governadora no texto.
A Secretaria de Cultura e a Fundação de Cultura Cidade do Recife também divulgaram uma nota de pesar, declarando que:
“lamentam a morte do escritor [...] e o silêncio de sua literatura de tantos predicados, que celebrou e ajudou a inventar o Nordeste”;
“o premiado e profícuo autor dedicou a vida à palavra e à cultura popular, fazendo todos os caminhos para encontrar e semear a escrita e a leitura, do jornalismo impresso à assessoria de imprensa, da academia à gestão pública”;
ele “escreveu tanto quanto ensinou a escrever, em oficinas de literatura que formaram importantes autores, cultivando o sensível e o fantástico da aventura de contar e fazer história”;
era “considerado um dos mais importantes autores nordestinos de todos os tempos”;
“deixa a cadeira três da Academia Pernambucana de Letras vazia e o imaginário coletivo pernambucano repleto de personagens e enredos, forças e contundências, que viverão para sempre”.
Vida e obras de Carrero
Nascido em 20 de dezembro de 1947 na cidade de Salgueiro, no Sertão de Pernambuco, Raimundo Carrero começou a escrever ainda na adolescência e também trabalhou como jornalista, construindo sua carreira no Recife. Ele foi crítico literário e editor do jornal "Diario de Pernambuco" por 25 anos.
Também foi professor de criação literária, ensinando vários alunos a desenvolver a habilidade da escrita através de técnicas para aprimorar o texto. Entre as características mais evidentes da sua escrita literária, estão a inclusão da surpresa no texto e a sedução do leitor, o diálogo com textos clássicos da literatura e a presença de temas religiosos e bíblicos na construção da ficção.
Além de fazer parte do Movimento Armorial, Raimundo Carrero presidiu a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e também foi presidente da seccional Pernambuco da União Brasileira de Escritores por quatro mandatos consecutivos, no período entre 1995 e 2002.
Ele escreveu mais de 20 livros. Entre suas obras publicadas, estão:
"Somos pedras que se consomem" (Grande Prêmio da Crítica – APCA de 1996 e Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional de 1996);
"As sóbrias ruínas da alma" (Prêmio Jabuti, 2000);
"Sombra severa" (2001);
"Ao redor do escorpião... uma tarântula?" (2003);
"O delicado abismo da loucura" (2005);
"O amor não tem bons sentimentos" (2007);
"A preparação do escritor" (2009);
"Romance do bordado e da pantera negra" (2014);
"Colégio de freiras" (2020);
"Estão matando os meninos" (2020);
"A luta verbal: a preparação do escritor" (2022).
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